A coragem de um jovem viciado em crack ao assumir a condição perante várias autoridades e um auditório lotado, foi elogiada pelo governador Marcelo Déda (PT) ao participar na manhã desta terça-feira, 8 no Centro de Convenções de Sergipe, do Plano Estadual de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas.
“A coragem não foi do Governo de Sergipe, mas de Francisco Daniel, que foi usuário do crack e hoje está em tratamento para se livrar das drogas. Eu sei que não é fácil enfrentar o vício e assumir perante a sociedade. Esse sim é corajoso e de quem eu tenho o maior orgulho”, destaca o governador ao se referir ao jovem responsável pelo primeiro discurso no evento.
Francisco Daniel Simões Souza, 24, arrancou lágrimas e aplausos não apenas da mãe que o acompanhou na platéia, mas das pessoas que participaram do evento. “Eu peço que minha mãe [Maria Angélica Souza] que fique de pé, pois ela mais do que eu é maior sofredora dessa história que começou aos 13 anos. Sou viciado em crack e estou aqui para servir de espelho para outros jovens que estão nas drogas, mostrando que é possível se recuperar”, ressalta Francisco Daniel, que faz tratamento no Centro de Atenção Psicossocial (CAPs).
Referência
Ao ser indagado pela reportagem do Portal Infonet, sobre o que o levou a enfrentar tanta gente e admitir o vício, Francisco Daniel não pensou duas vezes: “a vontade de mudar essa situação, servindo de espelho e de referência para outros jovens que entram na vida das drogas. Eu comecei cedo. Com menos de 13 anos já usava álcool, que não deixa de ser uma droga.
Aos 14 anos, fumava maconha e começava a usar o crack, do qual fiquei viciado. Um dia tive um princípio de overdose e fui levado ao Hospital Nestor Piva. De lá me encaminharam para o Hospital São José, que não tinha vaga. Foi quando me indicaram o CAPs e graças a Deus não uso drogas desde o dia 4 de novembro de 2009”, comemora o jovem que nasceu na Bahia mas se considera sergipano.
No CAPs ele participa de atividades terapêuticas, tratamento psicológico individual e em grupo, além de tratamento psiquiátrico. Falando sobre a família de que ficou distante enquanto estava no mundo das drogas, Francisco Daniel contou que tem um irmão mais novo [não usa drogas] e a mãe. “Meu pai morreu há três anos. Também sofria com o meu vício. Infelizmente não teve o privilégio de me ver nessa fase de recuperação. Mas de onde estiver, deve estar orgulhoso”, enfatiza.
Plano
A primeira-dama do Estado, Eliane Aquino [responsável pela iniciativa] informou que o Plano irá beneficiar inicialmente 11 municípios sergipanos indicados pela Secretaria de Estado da Segurança Pública, baseado na quantidade de casos apresentados. “Ainda não temos nenhuma experiência exitosa, mas estamos confiantes de que faremos o possível para combater o uso do crack em todo Estado de Sergipe”, ressalta lembrando que foi elaborada uma cartilha contando uma historinha do que é a droga, os efeitos e os locais de tratamento, nas escolas da rede pública de ensino. Isso além de campanhas na mídia, cartazes e panfletos.
Mobilização
O governador pediu a união da sociedade, da imprensa, dos prefeitos, dos professores e diretores, da polícia na repressão ao crack em Sergipe. “Nenhum de nós está isento de passar por esse drama social. O governo, os prefeitos, a escola, a igreja, as empresas, a polícia e principalmente a sociedade que pode denunciar por meio do nº 181 quando verificar alguém passando drogas para um jovem. Todos nós temos a responsabilidade, pois sozinhos os jovens não conseguem sair desse pântano”, entende o governador.
Estatística
Marcelo Déda ressaltou que o crack está presente em todos os municípios sergipanos e que 27% dos homens e 55% das mulheres estão nos presídios sergipanos por conta do tráfico de crack.
Em 2007, apenas 7% dos usuários atendidos nos Caps de Aracaju para álcool e drogas, eram dependentes de crack. Em 2009 esse percentual era de 62% e até maio de 2010, o número já era de 50%.
Eixos Estratégicos
O programa vai trabalhar por meio de quatro eixos estratégicos: Prevenção e mobilização social, cuidado e atenção ao usuário e sua família, reinserção social e repressão. Haverá ainda a criação do Núcleo de Prevenção na Secretaria de Estado da Educação, inserção do tema nas propostas curriculares e diagnóstico sobre o consumo de drogas em 400 escolas. Haverá ainda uma parceria com as escolas da rede particular e orientação dos programas de esporte para a temática do crack.
Atenção ao usuário
O Plano visa até dezembro deste ano, a implantação de 80 leitos de desintoxicação em hospitais gerais e psiquiátricos, 40 vagas em fazendas de reabilitação com metas de 100 vagas até dezembro e edital para a implantação da Casa de Acolhimento Transitório (12 vagas). “Apenas uma fazenda de recuperação está apta a receber os jovens viciados em Sergipe, as outras deverão se adequar até o final do ano para ampliarmos o número de vagas. Não queremos mandar os jovens para o interior para cortar capim, é preciso ter estrutura”, enfatiza Marcelo Déda.
Ações de repressão
- Interiorização do Denarc: Grande Aracaju, Estância, Propriá, Lagarto, Maruim, Glória e Itabaiana.
- Divulgação e fortalecimento de uma central de atendimento telefônico para denúncias anônimas - de pontos de vendas e tráfico de drogas; ampliação de operações especiais voltadas à descontinuação da rede de narcotráfico, com ênfase nas regiões mais vulneráveis, desenvolvidas pelas polícias Civil e Militar em articulação com as polícias Federal e Rodoviária Federal.
Investimentos
O Governo do Estado está disponibilizando com o benefício, R$ 3 milhões 680 mil, sendo R$ 2 milhões 810 mil para a Secretaria da Saúde, R$ 130 mil para a Secretaria de Educação, R$ 500 mil para a Secretaria de Inclusão Social e R$ 240 mil para a Secretaria de Segurança Pública.